Literatura
 
Os Sete Passos de Osíris
Juan Martín Carpio

Os Sete Passos de Osíris

À Maria José, minha dama, e a todos os idealistas que lutam sinceramente por um mundo novo e melhor.

Venha, acompanhe-me enquanto sonha. Você penetrou no meu mundo; observe atentamente tudo o que verá a partir deste momento. Daqui deste lugar, o limbo dos anões, quase a glória para os seres como eu, gnomos perdidos entre assuntos humanos, mostrarei para você, antes de penetrar no silêncio mais uma vez, o final feliz, ainda que talvez melancólico, de um sonho dourado. A eterna Dama ao meu lado sorri, respondendo ao meu piscar de olhos de cumplicidade. Ela também se junta a nós para contemplar da varanda do céu, o rei, que, acreditando estar sozinho, caminha nervoso de um extremo a outro do quarto.

Sei que você se pergunta, confuso, o que é tudo isso. Preste bastante atenção no que estou lhe dizendo. Antes de ir embora para descansar de novo, prometi a ela contar tudo para você. Ninguém sabe quantos séculos se passarão até que estas linhas desfilem diante de seus olhos, ansiosos por conhecer o início desta história. Eu, de qualquer jeito, conto para você, acredite se quiser, querido amigo, a maneira como tudo acontecerá. Para nós, o tempo é relativo; pode ser que hoje eu descanse do trabalho que farei amanhã, ou que me lembre do que aconteceu há um milênio como se fosse ontem mesmo, ou talvez o presente já seja passado. Quem sabe... Nós, da minha raça, vivemos fora do tempo e, ainda que vocês tenham certeza de que pertencemos ao mundo da imaginação, isso não significa que não existamos; vivemos em outro plano, ainda que você, amigo leitor, talvez não precise que eu o diga. Como você sabe, as lendas e os mitos são transmitidos pelos gênios e pelas fadas; desde o berço, os seres humanos escutam o divino sopro dos nossos contos. Dizem que os autores foram os irmãos Grimm ou Esopo; mas, na verdade, somos nós os inspiradores dessas histórias mágicas cheias de fantasias que contêm mais verdade do que os livros das pessoas sérias. Nisso consiste nosso trabalho: transmitir os tesouros da imaginação. Ainda vêm à minha memória fragmentos de lembranças daquelas longas noites ao lado de Cervantes, o cavaleiro dos cavaleiros, e de William Shakespeare, o sonhador de uma noite de verão... Bons tempos, bons tempos mesmo; dias que inexoravelmente voltarão, a não ser que o universo acabe ou Deus encerre os anões como eu no mais profundo esquecimento. Agora, preste atenção, porque você presenciará o que é e o que será.

Antes de continuar, desculpem-me um momento; a Dama pede nossa atenção para que observemos atentamente o que acontece lá embaixo, na câmara do rei. Você pode ver o que eu estou vendo? Alguém entrou no quarto para anunciar que o momento chegou. Seu coração está pulando como quando era um jovem estudante. Ele espera um momento, até que

o empregado doméstico abandone o quarto. Não quer que ninguém veja uma só sombra de dúvida ou pesar em seu rosto. Sozinho de novo no meio da câmara real, aperta fortemente os punhos, respira profundamente e se dispõe a ir ao encontro.

Pobre rei... Conheço muito bem seu coração, desde que era pequeno: não tinha orgulho e era limpo; nunca abusou do seu poder nem esqueceu os mais humildes e necessitados. Te direi, amigo, que a realeza não o afeta nem muito nem pouco; ele a vê simplesmente como um dever, mesmo que às vezes seja para ele uma carga demasiado pesada. Trinta longos anos se passaram diante de seus olhos desde o dia em que tomou entre suas mãos as rédeas do país, e para ele parece que foi ontem. Hoje comemora a festa do seu jubileu. Este dia não é importante só por esta razão, mas também porque quer fazer uma oferenda à lembrança do seu mestre. Você quer saber quem foi seu mestre? Não seja impaciente, amigo, apenas acabou de começar a ler meu relato. Já saberá...

Direi, porém, que, freqüentemente, durante todos esses anos, sobretudo nos momentos difíceis, o rei teve seu mestre presente em suas lembranças e, mesmo o tendo conhecido melhor do que ninguém seu mestre, este sempre permaneceu desconhecido, como algo que ninguém, nem mesmo ele, pôde alcançar; um mistério impenetrável que sempre rodeou sua pessoa. Seu mestre, com o passar do tempo, foi se convertendo em um símbolo e perdeu gradualmente, na memória do rei, seu caráter humano, inclusive às vezes esquecia seus traços pessoais. Levado pela própria força do mito, acostumou-se a pensar nele como o pai da pátria e o fundador do império. Porém, com toda certeza, meu amigo, eu mesmo sou testemunha disso: o rei abriu, no meio da vitória e da derrota, suas mãos poderosas, que o viram guerrear e, às vezes, amaldiçoar, chorando na solidão da noite. Na verdade, sempre se sentiu acompanhado pelo poder misterioso daquele homem convertido em mito, inclusive depois que ele desapareceu da sua vida.

Embora querendo se lembrar dele tal como era quando ainda estava vivo, sorrindo, lutando apaixonado e discutindo, hoje queria relembrar suas expressões e aquela forma de olhar até o mais profundo da alma. Naquele tempo, quando ainda era jovem, e inclusive hoje, o rei teria dado sua vida por ele.

Após um grande suspiro, como se quisesse se livrar do peso dos anos, o rei abandona a câmara e vai ao exterior da grande mansão. Caminha devagar, mas com firmeza; desce as escadas da entrada principal do palácio e se detém um momento para ajustar as luvas brancas. Com os olhos, questiona seu secretário pessoal, que, sem palavras, lhe confirma que tudo está preparado. O carro aberto o espera em frente à grande escadaria; o rei sobe ao interior e a porta do veículo se fecha atrás de si. A guarda real, com capacetes brilhantes e alados, montada sobre cavalos brancos, escolta o veículo e a grande cavalgada se põe em movimento.

As ruas, com sua passagem, enchem-se de flores; cada esquina da cidade os recebe com uma chuva de pétalas e aclamações. O rei, em pé, portando os símbolos tradicionais do poder em suas mãos (o látego, o bastão em forma de gancho e a coroa real do Alto e Baixo Egito), coberto por uma capa branca de linho que cai desde seus ombros sobre o uniforme azul, saúda e responde à multidão, que grita sem parar... Você não consegue vê-lo? Use sua imaginação, você pode! Está vendo-o agora? Ele não é extraordinário?... Como um faraó dos tempos antigos, sublime!

Os megafones anunciam sua chegada à grande esplanada, frente ao monumento levantado ao herói. O carro freia suavemente. O rei, após descer do veículo, caminha em direção ao pé do conjunto escultórico. Escolheu esse lugar para comemorar o trigésimo aniversário de seu reinado e para render, ao mesmo tempo, homenagem ao seu mestre. Apesar da gritaria ao redor, está concentrado em seus pensamentos, enquanto contempla fixamente a efígie.

No meio de uma estrutura piramidal, o artista o esculpiu de acordo com os antigos cânones: pernas fortes e pesadas como marretas sobre a base, os dois braços repousados vigorosos sobre a cruz de uma espada com a ponta pregada no chão. A cabeça, de perfeitas proporções, coberta com o capacete tradicional de guerra, reproduz seus traços essenciais, dotados ao mesmo tempo de uma coisa impessoal e eterna. Por trás, apoiando os braços abertos sobre seus ombros, há uma bela dama de delicadas feições, vestida à moda antiga, e

o próprio espírito da pátria protegendo-o e projetando sua energia sobre ele. Ninguém nunca saberá quem foi ela, a misteriosa dama a quem o herói consagrou sua vida; aquela que, beijando sua fronte, levou-o consigo. Ela, ao meu lado agora, me olha fixamente, indicando, com um dedo sobre os lábios, que guarde silêncio.

O rei pega entre suas mãos um grande ramalhete de flores de lótus entrelaçados; adianta-se e deposita-o aos pés da estátua. Ali permanece durante alguns minutos, firme e estático, fixando intensamente seu olhar no rosto do herói. Mas, espere, algo acontece... Eu também vi! Sobre a pedra, desenhou-se, como numa transparência, seu rosto sorridente... O coração do rei se enche de felicidade; agora sabe que ainda vive e que ainda o aceita como discípulo. Depois, com os olhos cobertos de lágrimas, virou em direção à multidão que o aclamava. Ainda penetrado na visão da alma, quase não escuta a voz do povo, que o clama:

-Vida! Força! Renascimento! Viva o faraó, nosso senhor!

-Viva Mena II!

Pobre Mena, rei órfão... Agora está sozinho; nem a Dama, nem seu mestre, nem

sequer eu podemos enfrentar por ele o que somente ele mesmo terá de enfrentar. Como o primeiro dia, como cada dia de seu reinado, tem que se dominar e lembrar que já não é como os outros. É o rei, Mena II, amado de Deus e de seu povo, filho espiritual do grande herói fundador da primeira Dinastia do Império Imortal, no ano da graça de 2100 da era comum.

Ave! Que belo é teu fulgor desde o horizonte, iluminando as Duas Terras com teus raios! Todos se alegram vendo-te como rei do céu. A coroa do Alto e Baixo Egito sobre a cabeça, a Serpente Real, firme sobre a fronte, aceitou assento entre suas sobrancelhas...

Ask ainda guardava no bolso a anotação misteriosa, que foi causa de uma viagem a um passado recente e a um futuro que vagamente começava a vislumbrar. Enquanto recolhia a mala da lenta esteira de bagagens, perguntava-se se não teria sido uma decisão muito impulsiva voltar mais uma vez. As vozes estridentes dos funcionários e os gritos das famílias que esperavam, cheias de ansiedade, do lado de fora do aeroporto, trouxeram à sua memória

o barulhento Cairo, que tinha conhecido há muitos anos. Ao sair, um grupo de taxistas atirou-se sobre ele. Ask, simulando não ouvir, tirou do bolso da jaqueta uma carteira e escorregou umas notas entre seus dedos, mostrando-as aos olhos dos interessados. Deixou que discutissem entre eles até que a lei do mais forte se impôs: um jovem, mostrando o melhor dos sorrisos, convidou-o a entrar num veículo com portas quase desmembradas e pneus tão lisos como o asfalto. Ainda continuavam as discussões quando abandonou rapidamente o aeroporto para começar as acrobacias no meio daquele tráfego de feira da cidade dos milagres. “Cairo, Cairo, a Babilônia moderna”, repetia Ask em voz baixa, como uma antiga ladainha, sentindo seus olhos úmidos e cansados. Deslizou o olhar pela cidade dos sonhos e dos pesadelos, da esperança e do negro pessimismo, da fatalidade e da graça divina, unidas naquele grande buraco do mundo, cruzamento de civilizações e de semáforos que nunca funcionavam. Sua cidade, querida e odiada, como só acontece com os amigos mais íntimos, com a mulher mais próxima, com a família e até com a própria pele. “Que remédio... E que sorte a minha...!”.

Ao chegar ao quarto do hotel, depois de desfazer a mala, esgotado, esticou-se na cama. Não pôde deixar de lembrar a primeira vez que veio, muitos anos atrás, a um hotelzinho barato, com banheiro compartilhado; resto abandonado do que um dia fora o lugar preferido para reuniões de intelectuais e egiptólogos. Incluía café da manhã e mais uma refeição por dia. Sempre que voltava, à noite, tinha o nariz manchado pela fuligem escura da cidade mais poluída e suja do mundo. Deixou-a com dez milhões de habitantes e agora voltava para um monstro com mais de trinta milhões de almas. Agora, neste hotel moderno, apesar do luxo que ocultava dos visitantes o drama diário do país, perguntou-se de novo, como tantas outras vezes, sobre as tristes circunstâncias em que agora vivia esse povo, dividido em seus sentimentos e cujo esquecimento obstinado do passado o tinha submergido no fanatismo e no caos. Perguntava-se freqüentemente se restava alguma coisa de tudo aquilo ou se a alma do Egito tinha morrido definitivamente. Durante meses, a idéia vinha rondando sua dura cabeça. “Gostaria de escrever sobre isso, mas não consigo fixar no papel nenhuma linha.” Ask só sentia necessidade de escrever quando tinha algo engasgado na garganta, uma pergunta que precisava de uma resposta e que a cada dia era mais forte, talvez porque os cabelos brancos que cobriam sua cabeça falavam de um tempo que já passou, de feridas no coração que nunca curaram e de uma profunda melancolia, tão intensa quanto a profundidade apagada de seus olhos, cheia de fantasmas que clamavam direto das sombras.

A dor daqueles sentimentos profundos se confundiu com as queixas do seu velho coração. Mecanicamente, tirou do seu bolso o comprimido que ainda o ligava à vida. Sempre hesitava e, durante alguns instantes, brincava com ele nas mãos, pensando que talvez devesse tornar a fechar a caixinha e simplesmente deixar que acontecesse o inevitável. No entanto, desta vez decidiu esperar mais um pouco; antes, queria encher os olhos com a luz eternamente azul dos lugares sagrados. Precisava interrogar em silêncio os muros mil vezes contemplados. Aprendera a reconhecer sua natureza imortal, a sentir a continuidade da vida, da eterna aventura do homem, muito além do tempo e do espaço. No entanto, aquele sentimento não o consolava, ao contrário, fazia-o sentir-se como um náufrago perdido no infinito, sempre condenado a dizer adeus. Sua mão, como tantas outras vezes, deslizou para capturar desesperadamente entre seus dedos a velha foto manuseada de Ana. Deus, quanta saudade!

O cansaço da viagem consumiu Ask no consolo dos sonhos, enquanto suas mãos ainda permaneciam aferradas à imagem amassada pelo tempo. Não sentiu a doce brisa que beijou sua fronte, nem a etérea mão que acariciou seu cabelo.

O novo dia, repleto de promessas e de vida, resgatou sua alma mais uma vez para levá-la ao torturado corpo. O som das buzinas dos carros, confundido com os acordes de uma antiga música vinda de algum lugar, misturou-se com o “tum tum” ancestral do seu coração. Vida, vida... Desde que Ana desapareceu, não tinha sentido aquela sensação. Devagar, com esforço, deixou a cama e, agradecido, foi até a sacada do quarto para desfrutar a vista do imenso rio eterno, deixando preguiçosamente que o dourado presente de Rá acariciasse seu rosto sonolento. Logo, após tomar uma refrescante ducha, desceu ao salão de café, cheio de energia e otimismo. Enquanto saboreava o fumegante café, examinou pela enésima vez o convite que o havia trazido até ali. A carta que acompanhava a passagem de avião continha apenas um nome em letras douradas, Os guardiões do Egito, e um endereço. Era um convite para participar como escritor egiptólogo de uma importante reunião. Ask pensou, ao recebê-lo, que pudesse se tratar de algo pouco sério, pois nunca tinha ouvido falar de nenhuma organização com esse nome; provavelmente era uma nova agência de viagens. De qualquer forma, a carta tinha chegado no momento exato, quando a rotina da espera se fizera tão densa que lhe produzia asfixia.

No entanto, o que realmente o levou a aceitar este convite foi um estranho sonho, com visões misteriosas de um futuro distante, em que persistentemente aparecia a figura de um rei e de seu saudoso amigo Zander. Quando Ask era jovem, tinha a capacidade de escapar do tempo e de se comunicar com o outro mundo, tão real para ele quanto seu próprio corpo. Ninguém, nem Ana sabia do seu amigo secreto, Zander, o gnomo, aquele estrambólico personagem de seus romances, ao qual não se atrevia a chamar de personagem fictício, porque em muitas ocasiões tinha estado presente e se manifestado naquela parte inspiradora que a gente chama de imaginação e que Ask considerava, na realidade, como a ponte em direção ao futuro e ao invisível.

Ask tinha saudades de Zander, seu amigo intrometido e enrolador que, freqüentemente, em outros tempos, sentava-se sobre seus ombros, observando a maneira com que debulhava as letras sobre o teclado do seu computador, concordando ou condenando com seus grunhidos tudo o que escrevia de acordo ao seu parecer muito particular. Tinha sido para ele uma fonte inesgotável de ditos e reditos de anedotas sem fim e de memórias do passado distante. Contou-lhe infinitas histórias, desde suas aventuras de milênios atrás, quando estava preso numa pequena estátua ushabti do antigo Egito, até seu romance com uma certa gnoma, passando por suas viagens secretas ao coração de Abydos e a outros lugares que somente ele conhecia. Sim, definitivamente, havia sido generoso com ele, simpático e divertido e, sobretudo, um amigo nos momentos mais difíceis enquanto esteve nestas terras. No entanto, um dia desapareceu da sua vida e com ele se foi a inspiração. O passar do tempo tinha esgotado aquela rica fonte e, desde muitos anos, Ask tinha sido incapaz de escrever sequer uma linha. Dias atrás, quando teve aquele sonho, a lembrança renovada do seu velho amigo, Zander, e aquela visão de um novo rei para o Egito fizeram com que ele voltasse e aceitasse o convite. Pressentia que seria uma ocasião única para relembrar antigos lugares e, finalmente, despedir-se do país sagrado, antes que esse fosse engolido pelos bandos de fanáticos.

Depois de terminar seu café da manhã, Ask dirigiu-se à rua e pegou um táxi na entrada do hotel. Experimentar de novo o denso tráfego do Cairo provocou-lhe uma vertigem quase infantil, como acontecia quando era criança nos carrinhos de supermercado. A cada centímetro, contava as manobras do taxista (provavelmente muito alegre pelo hashish) que o obrigavam a apertar as pernas contra o chão e a se segurar fortemente com ambas as mãos no assento. Perto de Garden City, uma área em outro tempo elegante e de estilo colonial inglês, o motorista virou em direção a uma rua sem saída e logo em seguida freou o carro. Ask demorou a reagir; não esperava que aquele beco escuro fosse o destino final de sua viagem. Desceu do carro e caminhou alguns metros, examinando o lugar, mas não conseguiu observar letreiro ou anúncio, nem cartaz nenhum nas portas com o nome que estava escrito no convite. Num dos edifícios havia uma velha farmácia. Ask se aproximou e entrou. Atrás do balcão, sentado, lendo um jornal, viu um velho homem de aspecto pacífico. Após cumprimentá-lo, o velho tomou entre as mãos o convite que Ask lhe mostrou. Olhando por cima das lentes dos óculos, depois de coçar o queixo, devolveu-lhe o convite, dizendo que ali nunca tinha existido nenhuma firma ou pessoa com aquele nome. Mostrou também que o número do edifício não correspondia a nenhum daquela rua. Ask, depois de despedir-se, voltou para a rua principal, deixando para trás o solitário beco. Ainda sem entender, decidiu voltar ao hotel. Em todo caso, a reserva do seu quarto tinha sido feita por alguém, fosse quem fosse. Só lhe restava esperar que esse alguém tentasse entrar em contato com ele. De volta ao hotel, ao entrar no quarto, encontrou sobre a mesinha um envelope com letras douradas, em cujo exterior aparecia escrito de novo aquele estranho nome. Abriu o envelope e viu, para sua surpresa, que continha apenas uma simples folha com uma frase enigmática: “Para renascer, é preciso conhecer a causa da morte. Encontrará essa causa no horizonte da desolação”.

Confuso, Ask sentou-se com o papel entre as mãos, tentando entender aquela estranha situação. Alguém havia entrado novamente em contato com ele. Não estava, pois, perdido no meio da cidade, isso era evidente, mesmo que tudo aquilo o fizesse duvidar. Pensou em abandonar imediatamente o hotel e pegar um avião de volta. A situação política do país estava complicada, com constantes rumores de golpe de estado; o nervosismo entre as pessoas se notava nas ruas; não era o momento mais adequado para jogos enigmáticos.

Durante um longo tempo, sentado à beira da cama, refletiu sobre que decisão tomar. De qualquer forma, não tinha nada a perder; não só seu fim estava próximo, como também pressentia que todo um mundo e uma forma de vida, na qual tinha nascido, crescido e amado, estavam por desaparecer. Preferiu, pois, deixar-se levar pelas mãos do destino, sem se preocupar muito. Perguntou-se quais deveriam ser seus primeiros passos, para onde deveriam se dirigir. Então ponderou repetidamente a frase escrita na folha, “no horizonte de desolação...”. Estava indicado com clareza que deveria ir para lá. Subitamente, a idéia se abriu em sua mente: o Horizonte de Aton! As ruínas da cidade de Akenaton! Definitivamente, só podia se tratar daquele lugar desolado! Cheio de empolgação, Ask começou a preparar a mala. Sabia que toda noite partia um trem em direção ao sul, por isso tinha que se apressar; não havia tempo a perder se quisesse alcançá-lo.

Assim que Ask abandonou o quarto, na penumbra, uma sombra com aparência feminina se aproximou de uma poltrona alta no centro do cômodo, onde alguém, pequeno como um menino, sentado na escuridão, parecia estar esperando.

-
Você fez tudo como mandei? – perguntou a figura feminina.
-
Claro! Mas, diga-me, senhora, acredita que ele estará preparado?
-
Não é o mesmo, mas no fundo ainda tem a força que em outro tempo o caracterizou.
-
Isso pode precipitar seu fim...

- Talvez, porém ele já não se aferra à vida, nem sequer espera nada do futuro e acredita que nada voltará a ser como foi. Ele tem de nos ajudar em nosso plano para estabelecer as sementes. É a oportunidade dele e também a nossa.

- Então assim será feito. Logo, as duas figuras desapareceram, em silêncio.